Luta e resistência

Terceira mesa do 20º Confup debate masculinidades e enfrentamento à violência contra as mulheres

Painel discutiu o papel dos homens no combate à violência de gênero, destacando a importância da desconstrução das masculinidades tóxicas e da luta conjunta com as mulheres na construção de uma sociedade igualitária e sem discriminações 

[Cobertura colaborativa de Juce Lopes, da comunicação do Sindipetro PR/SC, e de Vitor Peruch, da comunicação do Sindipetro Unificado; edição da comunicação da FUP e fotos de Marcelo Aguilar]

Na tarde desta quarta-feira (22), o 20º Confup recebeu a terceira mesa de apresentação, intitulada “Mulheres Vivas – o papel dos homens nessa luta”. O painel foi mediado pelas diretoras Bárbara Bezerra e Nalva Faleiro e reuniu o professor Carlos Magno Camargo Mendonça, pioneiro na pesquisa sobre Mídia, Gênero e Sexualidade no Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e a historiadora, ativista social e vereadora de Alagoinhas (BA), Juci Cardoso (PT).

No início de sua apresentação, a vereadora provocou o público ao abordar os altos índices de feminicídio no país. “Aqui nós temos cerca de 300, 400 pessoas. É muita gente. De fato, o congresso de vocês é um sucesso. Imagine, então, esse mesmo público em dobro, todo mundo morto. Isso choca, né? Mas é a quantidade de mulheres mortas no Brasil só no primeiro semestre. É o dobro, aproximadamente, da quantidade de pessoas, homens e mulheres que temos aqui. Em nenhuma nação do mundo esse dado deve ser naturalizado.”

Juci também destacou a importância de debater as violências simbólicas e enfatizou que é preciso reconhecer sua relação com os altos índices de de violência de gênero. “É aí que está o compromisso com a ruptura do pacto do machismo estrutural. De entender. ‘Mas Juci, eu não bato, eu não mato e nem concordo com quem faz isso’, mas se você xinga, se questiona as dores das mulheres, está infelizmente do mesmo lado de quem oprime e de quem violenta. Reconhecer que essa naturalização precisa ser enfrentada é o que vai fazer com que a mudança efetiva aconteça.”

Ao questionar quantas das mulheres presentes já haviam sofrido com microviolências que contribuem para a manutenção do machismo estrutural, a vereadora afirmou: “Observem que todas nós nos reconhecemos nessas violências simbólicas. Até nossos companheiros que estão comprometidos com outras lutas, contra opressões, acabam naturalizando. Muitas dessas falas são feitas por eles, que em tese são politizados e comprometidos contra as desigualdades. Mas eu observo que há um limite neste enfrentamento: quando ele não contrapõe esse homem, e precisamos discutir isso.”

Na sequência, a vereadora defendeu que os homens também precisam se posicionar diante de comportamentos machistas e de situações de violência praticadas por outros homens. “Quando nós falamos que um homem é agressor, se você não agride, você não tem que se ofender. O que você precisa fazer é começar a ‘tretar’ na casa dos homens, a se incomodar com o seu amigo, que chama a menor de novinha, para dizer a ele que se relacionar com meninas abaixo de 14 anos, com meninas menores de idade, é estupro de vulnerável. Não pode achar engraçado falar das companheiras, ou de quantas ficou, ou dar detalhes sobre isso. Isso é estimular a violência. Se tem alguém do seu lado que viola, que violenta suas esposas, suas namoradas, vocês precisam se posicionar.”

Para encerrar a apresentação, Juci destacou que a transformação das relações passa pela revisão cotidiana de comportamentos e referências culturais. “É preciso educar pelo exemplo. E educar pelo exemplo é entender que todos nós, homens e mulheres, consumimos e reverberamos cultura. […] Se aprendeu assim, ainda é possível, independente da idade que tenha, de refazer o caminho, de reconstruir e ajudar na construção de uma sociedade melhor e mais igualitária. Porque quem defende direitos não pode naturalizar a violação dos direitos das mulheres”.

“Com homens aprendi violência, com mulheres aprendi o valor da luta”

Ao abrir a mesa “Mulheres Vivas – o papel dos homens nessa luta”, o professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Carlos Magnos Camargo Mendonça, defendeu que a violência de gênero não pode ser compreendida como um problema individual, mas como resultado de uma construção histórica, social e cultural das masculinidades. Inspirado pela apresentação teatral que antecedeu o debate, ele afirmou que a sociedade naturaliza comportamentos violentos desde cedo e reforça relações de poder que colocam as mulheres em condição de vulnerabilidade.

Durante a exposição, Carlos destacou que mais de 60% dos feminicídios registrados no Brasil acontecem no ambiente familiar e são praticados por pessoas próximas às vítimas. Para ele, dar nome à violência é um passo fundamental para enfrentá-la. “Quem morre sob a violência do feminicídio morre por ser mulher”, afirmou. “As palavras dão nome às coisas. Quando a gente dá um nome a uma coisa, a gente escolhe o lugar dela.”

Ao analisar a construção histórica das relações entre homens e mulheres, o pesquisador explicou que a lógica patriarcal transformou o espaço público em território masculino e relegou às mulheres o espaço privado, consolidando uma visão de posse sobre seus corpos. “Ninguém é dono de ninguém. Nenhuma prática afetiva ou sexual determina a propriedade sobre o corpo da outra pessoa. Tudo o que é feito sem consentimento é uma grande violência”, ressaltou.

Em outro momento da palestra, Carlos recorreu ao conceito de “economia afetiva”, da pesquisadora Sara Ahmed, para explicar como a violência se reproduz socialmente. Segundo ele, “certos afetos, e a violência é um afeto, adquirem valor pela sua circulação”, sendo reforçados nas práticas cotidianas que naturalizam relações de dominação. Para o pesquisador, romper esse ciclo exige questionar os modelos de masculinidade que a sociedade produz e reproduz.

Ao refletir sobre a formação dos homens desde a infância, o pesquisador resumiu sua análise em uma frase que marcou o debate: “Com homens aprendi violência, com mulheres aprendi o valor da luta.” Em seguida, fez questão de diferenciar os dois conceitos. “A luta não é a violência. A luta é a busca pela conquista do espaço, é a busca pelo reconhecimento das nossas condições e a denúncia constante daquilo que vai ser o mecanismo exploratório.”

Na parte final da exposição, Carlos percorreu referências históricas e culturais para mostrar como o ideal de masculinidade foi sendo construído ao longo dos séculos, dos imperadores da Antiguidade ao cinema e à publicidade contemporânea. Segundo ele, esses modelos ajudaram a consolidar padrões de força, agressividade e dominação que ainda influenciam a forma como homens e mulheres são representados na sociedade e ocupam os espaços de poder.

Encerrando sua fala, o professor lembrou que, embora as mulheres representem a maioria do eleitorado brasileiro, continuam ocupando uma parcela reduzida dos cargos políticos. Para ele, é necessário romper com os padrões impostos pelas masculinidades dominantes e construir novas formas de convivência. “Homens precisam saber lidar com mulheres não como um lugar de ameaça, pois nenhum corpo é propriedade de ninguém.” E concluiu com um chamado coletivo: “Se nós queremos assumir as nossas vulnerabilidades, deve ser nosso compromisso lutar para que o que é vulnerável não se torne cada vez mais precário.”

Teatro aborda o feminicídio

Antes da mesa, o Grupo de Teatro da Polícia Militar da Bahia (GTPMBA) realizou uma intervenção que utiliza a arte e a cultura como ferramentas de aproximação comunitária e educação. A peça promoveu uma reflexão sobre a violência de gênero a partir da rotina de uma mulher que vive em uma relação abusiva e marcada pela violência.

Entre os temas abordados estiveram o ciclo da violência, que segue um padrão repetitivo de manipulação e agressões; a tentativa de denúncia e a busca por proteção; além da importância da atuação do Estado na prevenção do feminicídio e no enfrentamento das diferentes formas de violência contra as mulheres.

Criado em 1988, o grupo é formado exclusivamente por policiais militares e desenvolve iniciativas artísticas voltadas à conscientização e à prevenção da violência.

Palestrante recebe prêmio Pétalas de Benguela


Ao final da mesa, a coordenadora do Sindipetro Bahia, Elizabete Sacramento, homenageou a vereadora Juci Cardoso com o prêmio “Pétalas de Benguela – Mulheres Negras de Destaque”, criado em 2025 pelo sindicato em reconhecimento às lideranças femininas negras com trajetória de resistência e compromisso com as lutas coletivas contra as discriminações e as desigualdades raciais e sociais na sociedade baiana.

Foto: Paulo Neves/FUP

A premiação, que marca a celebração do “Julho das Pretas”, presta uma homenagem a Tereza de Benguela, rainha quilombola que liderou, no século XVIII, o Quilombo do Quariterê por mais de duas décadas. Ela comandava não apenas a resistência armada, mas também a organização política, econômica e social da comunidade formada por negros e indígenas — um exemplo concreto de liderança feminina negra, anticolonial e coletiva. Já as pétalas representam a beleza e a resiliência das mulheres negras. Assim, o nome combina resistência com ancestralidade, honrando a luta das mulheres negras no mundo do trabalho e na sociedade.

 

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