Das ruas para onde?

O país atravessa uma onda de protestos iniciada com a luta pela redução da tarifa da passagem do transporte público em São Paulo, capitaneada pelo Movimento Passe Livre (MPL), e que tomou proporções enormes, espalhando-se por várias cidades e incorporando outras reivindicações. Um dos fatores que contribuíram para o crescimento das manifestações foi a repressão violenta da polícia. As autoridades demonstraram desconhecer a máxima confeiteira: quanto mais se bate na massa, mais a massa cresce.

A insatisfação com os serviços públicos, a corrupção e os gastos com estádios para sediar a Copa do Mundo da Fifa somaram-se a reivindicação da redução da tarifa e o resultado foi o maior protesto massivo das últimas duas décadas no Brasil.

Diferente das outras grandes manifestações que o país já presenciou, Diretas Já (1984) e Impeachment de Collor (1992), onde os partidos de esquerda, movimentos sociais e pastorais imprimiam o ritmo dos atos, a maioria das pessoas que toma as ruas declara o movimento apartidário. Faixas coletivas deram lugar aos cartazes individuais e quase não há lideranças ou mesmo discursos públicos.

O desprezo aos partidos e organizações sociais vai à contramão da história. O direito de se manifestar livremente foi conquistado pelos movimentos sociais e partidos de esquerda que ousaram enfrentar a ditadura militar. Além disso, um protesto é por essência um ato político. Um movimento com aversão à política traz o risco do retrocesso, pois remete ao antidemocrático e o resultado no horizonte não é outro senão a ditadura, a história comprova.

O jargão “meu partido é meu país”, visto nas manifestações de diversas capitais, não é novidade. Foi muito utilizado no integralismo, ou Ação Integralista Brasileira (AIB), fundada em 1932 por Plínio Salgado. Esse movimento trazia fortes influências do fascismo italiano e do nazismo alemão, não admitia representação popular de diversas fontes e opiniões e conflitava com a Ação Nacional Libertadora (ANL), de forma análoga aos conflitos entre partidos fascistas e socialistas em diversos países à época.  A AIB, assim como todos os outros partidos políticos, foi extinta após a instauração do Estado Novo, efetivado em 10 de novembro de 1937 por Getúlio Vargas.

De volta à contemporaneidade, está evidente que setores conservadores de ultradireita buscam disputar o sentido das manifestações. Algumas faixas e cartazes trazem anomalias como “intervenção militar já”. O caráter vândalo dos últimos atos reafirma a infiltração de ultraconservadores.  A velha mídia, antiga aliada dos direitistas, tenta caracterizar o movimento como anti-Dilma e outras pautas que imponham o retorno do neoliberalismo.

Fato é que são muitas as reivindicações (a maiorias justas), assim como são as opiniões e visões de mundo presentes na sociedade. Em suma, trata-se de um grito de indignação de um povo historicamente excluído da vida política nacional e acostumado a enxergar a política como elemento prejudicial à sociedade. 

O discurso do professor e filósofo Slavoj Žižek aos manifestantes do movimento Occupy Wall Street, em setembro de 2012, também serve de reflexão ao movimento brasileiro, do qual o Sindicato destaca o seguinte trecho: “Nossa mensagem básica é: o tabu já foi rompido, não vivemos no melhor mundo possível, temos a permissão e a obrigação de pensar em alternativas. Há um longo caminho pela frente, e em pouco tempo teremos de enfrentar questões realmente difíceis – questões não sobre aquilo que não queremos, mas sobre aquilo que queremos. Qual organização social pode substituir o capitalismo vigente? De quais tipos de líderes nós precisamos? As alternativas do século XX obviamente não servem”.

 

*Slavoj Žižek  nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London.