Emoção e esperança marcam primeira visita do Sindiquímica PR à Fábrica de Fertilizantes de Araucária, após três anos fechada

Impedidos de entrar na Fafen-PR durante o governo Bolsonaro, petroquímicos relatam a emoção de pisar de novo o chão da fábrica que está fechada desde março de 2020

 

[Por Alessandra Murteira, da imprensa da FUP]

 

Com passos firmes, jalecos laranja e o emblema da FUP estampado no peito, trabalhadores petroquímicos do Paraná caminham em direção à Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados de Araucária (Fafen-PR). Pela primeira vez em três anos, lhes foi permitido pisar de novo aquele chão tão familiar e ao mesmo tempo tão hostil, desde que a Petrobrás fechou a unidade, em março de 2020, e demitiu todos os empregados.

 

Coração acelera, olhos enchem d’água, mãos umedecem. O grupo se entreolha, não é preciso falar nada. A sensação é a mesma. Flashes do que viveram nos últimos anos invadem suas mentes, como o trailer de um documentário que dói fundo, machuca a alma.

 

A cena aconteceu esta semana, no dia 07 de março. Com os sentimentos embaralhados por emoções que alternavam entre alegria e tristeza, a pequena comitiva de seis trabalhadores percorreu durante duas horas as instalações da Fafen. A incursão foi organizada pelo Sindiquímica PR, que, após três anos cobrando o acesso à unidade, finalmente teve a solicitação atendida.

 

“Além de demitidos, fomos tratados como bandidos”
“Durante todos esses anos, fomos tratados como bandidos pela gestão da Petrobrás, que proibiu a nossa entrada na fábrica e negou informações e documentos cobrados pelo sindicato sobre as condições operacionais. Nos impediram até mesmo de verificar e acompanhar a situação dos trabalhadores contratados para manter a conservação dos equipamentos”, revela o diretor da FUP e do Sindiquímica PR, Gerson Castellano.

“Parecia que eu nunca havia saído de lá”, revela Ademir sobre visita à Fafen PR

 

A “visita técnica” realizada por cinco dirigentes sindicais petroquímicos e um petroleiro logo se transformou em uma catarse coletiva. Não podia ser diferente. “Andamos por toda a área industrial, fomos na sala de controle e, apesar da tristeza de ver aquela fábrica gigante vazia, inoperante, a sensação que tive foi de estar em casa. Parecia que eu nunca havia saído de lá”, relata Ademir Jacinto da Silva, 46 anos, conhecido entre os companheiros como Mãozinha.

 

Técnico de operação, ele trabalhou 19 anos e seis meses na fábrica, até perder o chão, ao ser demitido. Como mora em Araucária, sempre passa em frente à unidade e nunca se conformou com o absurdo de ver a unidade fechada, com tanta gente desempregada e a economia da região em frangalhos.

Greve contra fechamento da Fafen durou 21 dias e teve adesão de petroleiros de todo o país

 

Apesar de todos os alertas da FUP e do Sindiquímica PR sobre os prejuízos econômicos do fechamento da Fafen e o consequente aumento da dependência da importação de fertilizantes e de outros insumos que eram produzidos no Brasil, nada impediu que o governo Bolsonaroo desmontasse um setor tão estratégico. A gestão da Petrobrás não recuou nem mesmo após a histórica greve de fevereiro de 2020, que mobilizou petroleiros de todo o Brasil na luta conjunta com os petroquímicos para impedir o fechamento da Fafen PR.

 

Com duas filhas adolescentes, Mãozinha, assim como tantos outros demitidos, jamais conseguiu retornar ao mercado de trabalho, fato agravado pela perseguição e discriminação que sofreu e ainda sofre por conta de sua atuação sindical. Ele foi um dos cinco sindicalistas que ocuparam por 21 dias uma sala de reunião na sede da Petrobrás, no Rio de Janeiro (foto abaixo), durante a greve de 2020, buscando interlocução com a gestão da empresa para que preservasse os empregos dos companheiros de Araucária.

 

Sindicalistas viveram dupla demissão
“Resistimos esses anos todos, mantendo de pé a nossa luta pela reabertura da fábrica e por isso fomos tão perseguidos”, diz Rodrigo Pexe, 46 anos, outro petroquímico que participou da visita à Fafen. “Veio tudo à tona. Memórias boas e ruins”. Ele também foi técnico de operação na fábrica, trabalho que realizou por 21 anos antes de ser demitido. “Tinha certeza de que iria me aposentar ali. Até cheguei a entrar na faculdade de direito, mas para exercer após a aposentadoria”.

Rodrigo Pexe participou da vigília que os trabalhadores realizaram em frente à Petrobras, durante a greve de fevereiro de 2020

 

Os planos mudaram e hoje o que sustenta Pexe é o trabalho com a advocacia. Mas, foi um doloroso caminho até se reinventar. Alguns meses após ter sido demitido, ele e outros seis companheiros da Fafen-PR chegaram a ser contratados pela Unigel para operar a Fafen-BA, que havia sido arrendada pela Petrobrás.

 

O que parecia um alívio logo se transformou em pesadelo para Pexe e outros três trabalhadores, que, assim como ele, eram sindicalistas. “Chegamos a trabalhar um mês na Bahia, mas, fomos desligados, ao contrário dos outros companheiros que não eram sindicalistas. Ficou evidente a perseguição. Foi um choque, um trauma que carrego até hoje”, revela.

Foto: Alberto Coutinho/GOV-BA

 

A atitude desumana da Unigel teve repercussões ainda piores para os outros três trabalhadores que passaram por essa dupla demissão. Diferentemente de Pexe, eles se mudaram para a Bahia com esposas e filhos. “Abandonaram tudo, venderam as coisas e se mudaram pensando que estavam começando uma nova vida. Foi muito cruel”, lembra.

 

O fato chegou a ser denunciado pela FUP ao Ministério Público do Trabalho e também às entidades governamentais da Bahia, mas até hoje nenhuma providência foi tomada. “É muito duro sermos perseguidos, tratados até mesmo como terroristas pelo fato de lutarmos pelo coletivo. A visita à Fafen, depois de tudo isso que vivemos, acendeu uma esperança de que a nossa luta não foi e não será em vão”, declara Pexe.

 

FUP quer reabertura imediata da Fafen e fortalecimento do setor
A esperança de que ele fala já é realidade. A Fafen-PR, que estava sendo vendida pela Petrobrás, segue sob controle da estatal, após a negociação ter sido suspensa em meados de dezembro, no rastro da proclamação da eleição de Lula como presidente da República. A reabertura da fábrica e a recontratação dos trabalhadores demitidos estão entre as prioridades da pauta que a FUP vem discutindo com o novo governo.

 

A reestruturação do setor de fertilizantes para garantir a soberania alimentar do país foi um dos compromissos assumidos pelo presidente Lula em seu histórico discurso de posse. Ele já assinou o decreto que institui o Conselho Nacional de Fertilizantes e Nutrição de Plantas (Confert), que será responsável pela estruturação e implementação do Plano Nacional de Fertilizantes (PNF).

FUP quer a reabertura imediata da fábrica de Araucária e a volta da Petrobrás ao setor de fertilizantes

 

Nesta sexta, 10, a FUP reúne-se com o vice-presidente Geraldo Alckmin, atual ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, cuja pasta, junto com o Ministério da Agricultura e Pecuária, será responsável pelas políticas desenvolvidas para o setor de fertilizantes. Os petroquímicos e petroleiros, que há anos lutam para que o Estado brasileiro assuma papel de destaque no setor de fertilizantes através da Petrobrás, querem participação ativa no Confert.

 

Enquanto as mudanças não ocorrem, a produção agrícola brasileira segue altamente dependente de fertilizantes importados (85%), situação que se agravou com a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, principais fornecedores do produto, o que aumentou o risco de desabastecimento e elevou o custo de importação destes insumos. Apesar deste cenário evidenciar que a Petrobrás estava na direção errada, ainda assim, a gestão manteve a decisão, tomada no primeiro ano do governo Bolsonaro, de sair do setor de fertilizantes.

 

Na contramão do mundo, a estatal brasileira abandonou suas três fábricas – fechou a Fafen-PR e arrendou a Fafen-BA e a Fafen-SE – e interrompeu a conclusão da unidade do Mato Grosso do Sul (UFN-3), que já tinha mais de 80% da obra realizada. “A Petrobrás tem expertise e plenas condições de conduzir a retomada da produção de fertilizantes e é fundamental que a empresa assuma esse papel, reestruturando as fábricas e toda a logística do setor petroquímico”, afirma Castellano.