Memória

Greve Pela Vida completa 5 anos: a mobilização que marcou a defesa da categoria petroleira na pandemia

No dia 12 de abril de 2021, trabalhadores da Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar) iniciavam a Greve Pela Vida, uma das mobilizações mais marcantes da categoria petroleira durante a pandemia da Covid-19. Cinco anos depois, a data permanece como símbolo de organização coletiva em defesa da saúde e de condições seguras de trabalho.

O movimento foi construído em um cenário de crescente preocupação com o avanço da contaminação, agravado pela decisão da Petrobrás de manter a parada de manutenção da planta industrial em plena fase crítica da pandemia. A atividade ampliaria significativamente a circulação na unidade, com a entrada de mais de dois mil trabalhadores na rotina diária, elevando as chances de contágio.

O Sindipetro PR e SC questionou tecnicamente a continuidade do cronograma, e confirmou em reunião com a gestão da Inspeção de Equipamentos e da Manutenção que a alegada impossibilidade de adiar o calendário por prazos de segurança era inverídica. A motivação real era econômica: foi decidido assumir o risco de adoecimento e mortes para preservar indicadores de custos da parada.

Desde o início da crise sanitária, o Sindicato já alertava sobre os riscos de exposição nas unidades e cobrava medidas mais efetivas de proteção, diante de um contexto que exigia respostas urgentes.

Nesse sentido, as reivindicações da mobilização focavam na ampliação da testagem, no afastamento de pessoas do grupo de risco, na redução da circulação nas áreas operacionais e em mais transparência sobre os casos. A pauta tinha como demanda principal a proteção de vidas diante do descaso do governo federal à época, marcado pela ausência de ações efetivas no enfrentamento da Covid, e da condução da gestão da Petrobrás, que priorizava gráficos financeiros em detrimento da saúde dos trabalhadores.

Sem avanços nas tratativas, a categoria decidiu cruzar os braços. No entanto, apesar da expectativa criada pela aprovação do movimento paredista em assembleias, a adesão prática não foi tão grande quanto se esperava. A situação revelou uma contradição, pois muitos votaram favoravelmente mesmo sem estarem diretamente impactados pela parada, enquanto outros que haviam procurado o Sindicato alegando risco de vida acabaram furando o movimento no momento decisivo.

Para o presidente do Sindipetro PR e SC, Alexandro Guilherme Jorge, o sentimento de vitória pela deflagração da greve em condições tão adversas deu lugar à frustração. “É doloroso ver que alguns dos que mais nos procuraram pedindo socorro acabaram furando a greve e enfraquecendo a tentativa de suspender a parada. O Sindicato e a FUP fizeram tudo o que estava ao alcance, mas o movimento não teve a força necessária para parar o processo, pois quem mais precisava da proteção não sustentou a mobilização”, relembrou.

A paralisação foi encerrada em 16 de abril, após mediação do Ministério Público do Trabalho (MPT). As medidas conquistadas via MPT, como as visitas técnicas, reuniões semanais sobre segurança sanitária e boletins epidemiológicos, foram fundamentais e podem ter mitigado riscos, evitando um cenário ainda pior. Contudo, o saldo final é de pesar. Mesmo com os esforços das instituições sindicais, a parada não foi interrompida e dez mortes foram registradas em decorrência do procedimento industrial.

A tragédia, inclusive, já havia sido prevista pela ciência. Na época, uma Nota Técnica emitida por pesquisadores do INPA, UFMG, UFSJ, UFAM e por uma pesquisadora aposentada do Instituto Butantan alertava que a parada poderia causar cerca de cem mortes por Covid-19. O estudo utilizou modelos matemáticos para demonstrar como o fluxo de milhares de trabalhadores de outras cidades impulsionaria a circulação do vírus na região.

Cinco anos depois, relembrar a Greve Pela Vida é reafirmar compromissos que seguem atuais: a defesa da vida sobre o lucro, da dignidade e de condições seguras de trabalho. Um marco de resistência que, apesar das dores e contradições, continua a inspirar a luta da categoria petroleira.

Confira o depoimento  do presidente do Sindipetro PR e SC, Alexandro Guilherme Jorge, sobre a Greve Pela Vida

Confira as fotos

 

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Texto e fotos:  Juce Lopes

Vídeo: Altvista