XIX CONFUP debate a pauta da classe trabalhadora para a transição energética justa

Especialista citou a redução da jornada de trabalho como uma medida importante para diminuir a emissão de carbono

Foto: Luciana Fonseca | Sindipetro NF

A mudança da matriz energética global e o papel da classe trabalhadora para que esse processo ocorra de forma justa foram o cerne dos debates do terceiro painel do XIX CONFUP (Congresso Nacional da Federação Única dos Petroleiros), realizado na tarde desta sexta-feira (04).

 

Para auxiliar na compreensão deste tema tão importante quanto complexo, o evento contou com palestras de Amanda Ohara, mestre em planejamento energético e membro da coordenação do Instituto Clima e Sociedade (ICS), e Renata Belzunces, economista do Dieese. A mediação do painel, denominado “Novas fronteiras e transição energética: desafios para os trabalhadores”, ficou por conta de Raira Coppola, petroleira da base de Caxias-RJ.

 

Amanda destacou que a sociedade não consegue dar as respostas à crise climática na velocidade que o problema exige. “Vivemos em um cenário de mudança e as decisões que são tomadas não estão mudando na mesma intensidade. E essas decisões podem comprometer o futuro das empresas do setor de energia e expor os trabalhadores. Ninguém sabe ao certo a resposta de como deve ser a adaptação das empresas para lidar com essa nova realidade, mas o fato é que para discutir isso a gente tem que ter diversas perspectivas sentadas à mesa, participando do debate, para que o risco dessas apostas seja reduzido”.

 

A especialista enalteceu a categoria por se envolver nesse debate. “Agradeço aos petroleiros por estar discutindo a transição energética justa. É um tema que não é importante só para o setor, mas para a sociedade como um todo. É um setor estruturante para todas as economias mundiais, mas especialmente no Brasil. A Petrobrás é historicamente desenvolvedora de soluções para a economia e quando ela se coloca a pensar no futuro, forma capacidades técnicas que ajudam a vislumbrar respostas para esses desafios, que são complexos e precisam das melhores cabeças em ação. Que a gente consiga desenhar um futuro próspero e de baixo carbono para economia brasileira”, finalizou.

 

Trabalho e Meio Ambiente

Segunda palestrante do painel, Renata Belzunces disse que as alternativas construídas para a crise energética não levam em conta as demandas da classe trabalhadora. “Se levassem, não teria mineração em terras ianomâmis, nem instalações fabris poluentes ocupando áreas de comunidades. O que nos move nesse debate é contribuir para a construção da agenda da classe trabalhadora sobre a crise climática”.

 

De acordo com Belzunces, os trabalhadores são afetados pela crise climática em primeira ordem e primeiro grau. “Quem trabalha na exploração e refino de petróleo é o primeiro atingido pelas substâncias tóxicas do processo. Quem trabalha na indústria de agrotóxicos, também. Aqueles que vão pulverizar as plantações são atingidos antes de que os produtos cheguem às nossas mesas. Antes disso, passam antes pelas comunidades do entorno das áreas agrícolas”, exemplificou.

 

Ela ainda enfatizou que as altas temperaturas prejudicam o trabalho de várias categorias, como construção civil, trabalhadores agrícolas e carteiros. “No Qatar, muitos trabalhadores da construção dos estádios morreram devido ao calor. No setor da construção civil da Índia, há determinados momentos do dia em que não se trabalha quando existe organização sindical. Quando não há, vem o estímulo ao trabalho sob forte calor e também as consequências”, disse.

 

Adiar o fim do mundo

Renata apontou que há muitas ações que podem ser desenvolvidas pela classe trabalhadora para “adiar o fim do mundo” e que muitas, inclusive, já estão sendo feitas. “Os trabalhadores já estão fazendo greve por questões ambientais. De 2007 a 2022, tivemos duzentas greves no Brasil que tiveram como pautas principais questões relacionadas ao meio ambiente, principalmente na educação pública, correios e agentes comunitários de saúde”.

 

A redução da jornada de trabalho, segundo a economista, é uma medida importante para a redução da emissão de carbono. “A última diminuição de jornada aconteceu na Constituinte de 1988. De lá para cá, todos os setores aumentaram muito a produtividade. E é evidente que podemos reduzir a jornada sem impactar muito essa produtividade. Diminuir a jornada é importante porque faz com que usemos menos recursos. Nos deslocaremos menos e consumiremos menos. Mas essa questão não pode ficar na decisão individual, se vamos usar canudinho ou não, se vamos de carro ou não, até porque boa parte das decisões ambientalmente melhores têm impacto financeiro grande e o bolso da maioria não aguenta. Tem que ficar no ponto de vista da oferta e não da demanda”, afirmou Belzunces.

 

Sobre a transição energética justa, a palestrante disse que se trata de um conceito aberto, sem uma definição exata, mas que esse processo deve acontecer sem deixar ninguém para trás. “A continuidade da exploração do petróleo, a interrupção ou a diminuição deve ser uma decisão sem que nenhum petroleiro ou comunidade beneficiada pela renda seja prejudicada. Existem experiências de transição justa no mundo, como na Espanha, que diminuiu consideravelmente a produção de energia através de carvão”.

 

Por fim, Renata mostrou que o tema da transição energética justa está colocado no Brasil e a Petrobrás está na vanguarda. “A estatal está se mexendo e tem a Diretoria de Energias Renováveis. Para os trabalhadores, uma possibilidade é integrar o tema na negociação coletiva. Já existem acordos coletivos com a inserção desta temática”.

 

Por Davi Macedo