Jornada de luta

Classe trabalhadora ocupa Brasília em marcha por direitos e soberania

Petroleiros e petroleiras se somam a milhares de trabalhadores de outras categorias e movimentos sociais pelo fim da escala 6×1 e defendem reestatização dos ativos estratégicos do Sistema Petrobrás que foram privatizados por Bolsonaro

Um dia após o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva encaminhar ao Congresso Nacional o projeto que prevê o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho sem redução salarial, a classe trabalhadora ocupou as ruas de Brasília nesta quarta-feira (15) em uma marcha que combinou mobilização e um sentimento de conquista nas reivindicações históricas da classe trabalhadora.

Carregando uma faixa gigante que reivindicava a reestatização da BR Distribuidora e das refinarias privatizadas no governo Bolsonaro, delegações de petroleiros e petroleiras de vários sindicatos da FUP marcaram presença na mobilização convocada pelas centrais sindicais. Com seus jalecos laranja, dirigentes sindicais e militantes marcharam pela Esplanada dos Ministérios, entoando palavras de ordem contra a escala 6×1 e em defesa da soberania energética e do fortalecimento da integração do Sistema Petrobrás.

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A categoria, que está em Brasília desde segunda-feira, 13, articulando apoio à pauta da reestatização, também compareceu em peso à audiência pública realizada na terça-feira (14), na Câmara dos Deputados Federais,  que debateu medidas estruturantes para ampliar o parque nacional de refino e retomar a participação do Estado brasileiro na distribuição de combustíveis. Essas medidas foram destacadas como fundamentais para proteger o país e a população brasileira dos impactos de crises internacionais sobre os preços dos combustíveis e o abastecimento de petróleo.

Nesta quarta à tarde, as delegações de petroleiros e petroleiras participam do lançamento da Frente Parlamentar Mista m Defesa da Reestatização da BR Distribuidora, Liquigás e Refinarias da Petrobrás privatizadas no governo Bolsonaro. O evento reunirá deputados, senadores e lideranças sindicais e sociais no Salão Verde da Câmara dos Deputados, a partir das 17h30.

Fim da escala 6×1

A principal reivindicação da marcha é o fim da escala 6×1, considerada pelas centrais como fundamental para garantir qualidade de vida, justiça social e aumento da produtividade.

O projeto enviado pelo governo federal, em regime de urgência, prevê a redução da jornada para 40 horas semanais, sem redução de salário. Durante coletiva, o ministro Guilherme Boulos afirmou que o “fim da escala 6×1 é um grito de liberdade do trabalhador brasileiro”.

Já o ministro do Trabalho e Emprego Luiz Marinho destacou os impactos da medida. “Melhorar o ambiente de trabalho é fundamental. Um ambiente saudável reduz o absenteísmo, melhora a concentração e o foco”. Segundo ele, “um trabalhador com mais qualidade de vida produz mais e melhor”.

Logo no início da Marcha da Classe trabalhadora, o presidente nacional da CUT, Sérgio Nobre, afirmou que a conquista só se dá com pressão: “Na história, nenhum direito da classe trabalhadora foi uma dádiva, sempre foi com muita luta, com muita mobilização. Então é assim que nós vamos buscar a nossa pauta”.

Ele destacou ainda que o envio do projeto já representa um passo importante: “Ela já é vitoriosa porque o presidente Lula acaba de enviar ao Congresso Nacional o projeto em caráter de urgência que acaba com a escala 6 por 1”.

A Vice-presidenta da CUT e presidenta da Confederação Nacional dos Trabalhadores no Ramo Financeiro (Contraf-CUT), Juvandia Moreira, reforçou o papel da mobilização popular: “Essa pauta só vai andar, só vai acontecer, se a gente fizer pressão popular, se o povo se mobilizar, se vier cobrar o Congresso, entregar a pauta. O governo do presidente Lula mandou o projeto pela redução da jornada e pelo fim da escala 6 por 1, mas o Congresso tem uma maioria de empresários. Então essa marcha é importante para isso, porque foi assim que a gente conseguiu avançar em outras pautas, com mobilização e pressão nas ruas”, disse a dirigente.

Conclat

A Conferência Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat) precedeu a marcha, na manhã desta quarta-feira. Dirigentes das centrais sindicais além e parlamentares participaram do encontro que aprovou a pauta da classe trabalhadora para 2026. O documento atualiza as pautas definidas em 2022 e serve como orientador para as eleições de 2026.

Durante a Conclat, o Ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, classificou o momento como histórico. “Hoje saiu no Diário Oficial da União o projeto de lei com regime de urgência enviado pelo presidente Lula, que acaba com a escala 6 por 1 e reduz a jornada de trabalho para 40 horas por semana, sem redução de salário”.

Já o líder do governo na Câmara, deputado Paulo Pimenta (PT-RS), apontou o horizonte político da proposta. “Hoje nós iniciamos a contagem regressiva da grande vitória que nós vamos ter, a redução da jornada de trabalho sem redução de salário. Vamos aprovar no Congresso Nacional ainda neste primeiro semestre”.

A deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) também ressaltou que o fim da escala 6×1 será conquistado com enfrentamento ao posicionamento dos representantes da direita, contrários à proposta. Para ela é preciso acabar com o que chama de escravidão moderna.

“Mais uma vez a direita diz que o Brasil vai quebrar se aprovar o fim da jornada 6 x 1. Mas nós sabemos que quem quebra o Brasil é a direita, os  representantes que se curvam aos Estados Unidos e que propõe ao Brasil um tarifaço e retiram direitos dos trabalhadores e trabalhadoras.” Rosário também lembrou que as mulheres serão as mais beneficiadas pela proposta, pois têm dupla e até triplas jornadas de trabalho.

Um dia histórico também foi definida a data de hoje pelo deputado Carlos Veras (PT-PE) ao reafirmar o seu compromisso e do presidente Lula com a classe trabalhadora.

“Nós temos esse compromisso com você e, nas ruas, mobilizados, nós vamos fazer com esse projeto de lei seja aprovado o mais rápido possível na Câmara dos Deputados e no Senado para garantir uma jornada de trabalho digna sem redução de salário”, declarou.

A tramitação para que o projeto seja aprovado foi explicada pelo deputado Vicentinho (PT-SP). Segundo ele, a maneira mais rápida para a aprovação foi ter enviado a proposta como Projeto de Lei, pois uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) demandaria a necessidade de mais votos de parlamentares,

” Uma PEC significa 308 votos, mas com 300 empresários [eleitos como deputados] como é que nós vamos aprovar essa lei? questionou.

Vicentinho explicou que o presidente Lula ao apresentar um projeto de lei em caráter de urgência constitucional bastam 257 votos e 45 dias para ser votado.

Marcha diversa

A marcha teve início por volta das 11h e seguiu pela Esplanada dos Ministérios em direção ao Congresso Nacional. As imagens mostram uma mobilização ampla, com forte presença de trabalhadores e trabalhadoras de diferentes categorias e regiões do país.

Ao longo do trajeto, a diversidade da classe trabalhadora se expressava nos blocos organizados. Trabalhadores e trabalhadoras da cidade e do campo, servidores e servidoras das três esferas (municipal, estadual e federal), bancários, metalúrgicos, professores, químicos, petroleiros, uma presença marcante de entregadores por aplicativos além de diversas outras categorias e movimentos sociais, incluindo a juventude organizada e coletivos também ocupavam as ruas, com faixas, bandeiras e batucadas que deram ritmo ao ato.

Entre os destaques, trabalhadores da educação celebravam a sanção recente do Plano Nacional de Educação, enquanto jovens puxavam palavras de ordem ao som de tambores.

Parlamentares de diferentes partidos e ministros de Estado também participaram, reforçando o peso político do ato.

Aplicativos, negociação coletiva e direitos no serviço público

A mobilização também deu destaque à regulamentação do trabalho por aplicativos, tema que ganhou força com a presença massiva desses trabalhadores.

A presidenta do Sindicato dos Motoristas em Transportes Privados por Aplicativos do Rio Grande do Sul (Simtrapli-RS), Carina Trindade, destacou as condições atuais. “Os trabalhadores de aplicativos não têm isso, trabalham numa escala 7×0 e a gente quer garantir que todos os trabalhadores tenham essa garantia de trabalhar 5×2”.

Ela também ressaltou a necessidade de uma regulamentação justa e a importância de enfrentar as desigualdades que atingem especialmente as mulheres nesse setor.

Outro ponto crucial da pauta de reivindicações é o direito à negociação coletiva no setor público, incluindo a regulamentação da Convenção 151 da OIT. A pauta busca garantir que servidores públicos das esferas municipal, estadual e federal tenham direito efetivo à negociação, sem depender de greves apenas para abrir diálogo com gestores.

“Os trabalhadores do serviço público querem a ratificação da Convenção 151, que é o direito à negociação coletiva. Às vezes o trabalhador do serviço público precisa fazer greve não para conquistar aumento, mas para conseguir que os governos sentem à mesa para negociar. Isso é ruim para o povo e ruim para os trabalhadores”, disse Juvandia Moreira em entrevista à TVT.

Combate à violência contra as mulheres

Entre as reivindicações aprovadas na Conclat, o combate ao feminicídio e à violência contra as mulheres também esteve presente na mobilização. A pauta reforça a necessidade de políticas públicas e condições de trabalho que garantam segurança e igualdade, especialmente diante das desigualdades estruturais enfrentadas pelas trabalhadoras.

Pauta aprovada na Conclat, mobilização contínua

pauta da classe trabalhadora foi aprovada na Conclat, realizada pouco antes da marcha, reunindo 68 reivindicações que combinam demandas históricas e novos desafios do mundo do trabalho.

Entre os eixos principais estão:

  • Fim da escala 6×1
  • Redução da jornada sem redução salarial
  • Regulamentação do trabalho por aplicativos
  • Combate à pejotização
  • Fortalecimento das negociações coletivas
  • Direito de negociação para servidores públicos
  • Combate à violência contra as mulheres

As centrais também destacam que, dos 63 itens aprovados na Conclat de 2022, cerca de 70% foram implementados, encaminhados ou estão em tramitação no Congresso, incluindo políticas de valorização do salário mínimo, igualdade salarial, ampliação do Bolsa Família e correções no Imposto de Renda.

Rumo ao 1º de Maio

A Marcha da Classe Trabalhadora integra um calendário mais amplo de mobilizações que segue até o 1º de Maio, com atividades em todo o país.

Ao ocupar Brasília, a classe trabalhadora reafirmou que o envio do projeto representa um avanço, mas que a conquista depende da continuidade da pressão social. Como sintetiza Sérgio Nobre, a história mostra que direitos não são concedidos — são conquistados com organização e mobilização.

 

[Da comunicação da CUT, com edição da FUP | Fotos: Marcelo Aguilar/Sindipetro Unificado]