Após conduzir a federação em um dos períodos mais turbulentos da história recente da categoria petroleira, dirigente recebe homenagem emocionada durante cerimônia que simbolizou a transição para a gestão de Cibele Vieira, primeira mulher a coordenar a FUP
O primeiro dia do 20º Congresso Nacional da Federação Única dos Petroleiros (Confup) foi marcado por um momento que extrapolou o rito formal da eleição da nova diretoria. Após a escolha da chapa que conduzirá a FUP no triênio 2026-2029 e da posse da nova direção, o plenário acompanhou uma homenagem ao ex-coordenador-geral Deyvid Bacelar, encerrando um ciclo iniciado em 2020 e simbolizando a passagem do comando da entidade para Cibele Vieira, primeira mulher a assumir a coordenação-geral da Federação.
A homenagem reuniu um vídeo que percorreu a trajetória sindical de Bacelar, depoimentos de dirigentes que acompanharam sua formação política e um discurso de despedida marcado pelo reconhecimento às lutas coletivas, pela defesa da renovação geracional e pela confiança na nova direção.
O tributo evitou tratar a história como uma trajetória individual. Desde os primeiros segundos, a narrativa enfatizou que a marca deixada por Bacelar foi construída ao lado da categoria: “Algumas trajetórias são lembradas pelos cargos que ocuparam. Outras, pelas pessoas que inspiraram ao longo do caminho. Esta é uma homenagem a quem fez da defesa dos trabalhadores um compromisso diário e da construção coletiva uma forma de viver”, afirmou a narração do vídeo.

A produção também relembrou os principais momentos da gestão iniciada em meio à pandemia: a greve nacional de 2020, a resistência às privatizações, os enfrentamentos durante o governo Bolsonaro e a participação da FUP na reconstrução da Petrobrás.
“Nunca fugiu da luta”
Entre os depoimentos exibidos, a coordenadora-geral do Sindipetro Bahia, Bete Sacramento, destacou o papel desempenhado por Bacelar nos momentos mais delicados enfrentados pela categoria: “Deyvid Bacelar é uma liderança sindical de verdade que nunca fugiu da luta. Quando quiseram privatizar a Rlam e outras empresas do Sistema Petrobrás, ele enfrentou a gestão defendendo a soberania nacional, os trabalhadores e a sociedade.”
Ela lembrou que o dirigente conduziu a greve realizada durante a pandemia, enfrentou processos administrativos e perseguições sem recuar na defesa da categoria: “Enfrentou o governo entreguista, o assédio contra o movimento sindical e, mesmo assim, conseguiu manter a categoria unida, barrar privatizações e colocar na pauta do governo Lula a reconstrução da Petrobrás.”

Bete também destacou uma dimensão menos visível da atuação política de Bacelar: o incentivo à participação feminina nos espaços de direção: “Vale registrar o grande aliado que foi para garantir a presença de mulheres no movimento sindical petroleiro e na Federação. Além de grande defensor da minha posição como primeira mulher a coordenar o Sindipetro Bahia e da companheira Cibele, que será a primeira a comandar a FUP.”
Uma liderança construída desde a base
Outro depoimento exibido durante a homenagem foi o do ex-coordenador da FUP e dirigente histórico Paulo César (PC) Martin, responsável por acompanhar os primeiros passos de Bacelar no movimento sindical.
Martin relembrou que conheceu o dirigente ainda nas assembleias da refinaria, quando ele sequer ocupava funções de direção: “Ali, naquele momento, eu já tinha identificado a grande liderança do companheiro para, no futuro, assumir a coordenação do Sindicato Bahia.”

Segundo ele, a renovação da direção sindical foi resultado de uma decisão planejada: “Entendi que, devido à grande mudança que houve na categoria petroleira, o melhor nome era o companheiro Deyvid Bacelar.”
Ao final, resumiu a avaliação sobre a escolha feita mais de uma década atrás: “Hoje, vendo a sua trajetória, só me orgulho, principalmente, por ter tomado a decisão correta.”
“Só muda o espaço que a gente ocupa”
Já empossada como nova coordenadora-geral da FUP, Cibele Vieira participou do vídeo ressaltando que sua história política se entrelaça à de Bacelar desde o início da década passada.
Ela lembrou que ambos chegaram às coordenações de seus sindicatos em 2014, justamente quando o cenário político brasileiro começou a mudar profundamente: “É possível falar que tanto eu quanto Deyvid estamos entre aqueles que representam uma nova geração de sindicalistas da categoria petroleira.”
A dirigente relembrou episódios como a Lava Jato, o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, a prisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os governos Michel Temer e Jair Bolsonaro e as mobilizações que marcaram esse período: “Tivemos muitas lutas muito difíceis nesse período e a gente na linha de frente do sindicato.”
Segundo Cibele, a convivência política foi marcada tanto por derrotas quanto por conquistas: “Choramos muito juntos por não conseguir evitar a privatização da Rlam. Apesar da luta fantástica que foi a greve, não conseguimos evitar o fechamento daquela fábrica. Mas também já tivemos momentos muito felizes nessa reconstrução.”

Ela citou como exemplos a retomada da Petrobrás no setor de fertilizantes e defendeu a continuidade da campanha pela reestatização de ativos estratégicos.
Ao encerrar seu depoimento, fez uma referência direta ao futuro político de Bacelar: “Não tenho dúvida de que Deyvid deixa seu legado na categoria petroleira. Vai continuar sendo um militante político em defesa da classe trabalhadora e vamos estar junto com ele em qualquer outra missão, porque só muda os espaços que a gente ocupa.”
E concluiu: “Seja onde for que você estiver, seguirá sendo um lutador da classe trabalhadora e um representante dos petroleiros e petroleiras.”
Renovação como princípio
Após a exibição do vídeo, Bacelar discursou pela última vez como dirigente sindical licenciado da FUP. Em tom de agradecimento, afirmou que a homenagem fez “passar um filme” de toda a trajetória construída ao lado da categoria: “São imagens muito fortes de toda a nossa luta aqui no ambiente sindical, junto com a categoria, junto com cada um e cada uma de vocês.”
Em vez de fazer um balanço pessoal, preferiu destacar a continuidade do projeto político da Federação e a renovação de suas lideranças: “Essa transição geracional se deu também na Federação Única dos Petroleiros e Petroleiras. Quando olhamos hoje a direção da Federação, é toda de uma nova geração, e esperamos que mais pessoas estejam chegando para dar continuidade à história da FUP.”

Bacelar lembrou que a limitação de mandatos é um princípio adotado pela corrente política da qual faz parte justamente para estimular a renovação: “Nós ficarmos nos espaços dois mandatos tem o intuito de promover a inovação, promover a oxigenação das entidades sindicais.”
A primeira mulher na coordenação-geral
Um dos momentos mais aplaudidos ocorreu quando Bacelar se dirigiu diretamente à sucessora. O dirigente afirmou que a construção da nova direção foi fruto de quase um ano de negociações entre os sindicatos filiados: “Construímos esse consenso com muito debate, muita conversa. Conversa formal na mesa da FUP, mas conversa informal também. Construindo o consenso no diálogo.”

Ao desejar sucesso à nova gestão, resumiu o sentido político da transição: “A gente passa esse bastão, de fato, para a mão da companheira Cibele e da nova diretoria para seguir em frente defendendo a nossa categoria, a nossa democracia e também a soberania nacional.”
Um ciclo que termina, outro que começa
A homenagem encerrou-se da mesma forma como começou: ressaltando que a história construída pela Federação é resultado da ação coletiva.
O vídeo exibido ao plenário sintetizou esse espírito ao afirmar que toda trajetória deixa marcas nas pessoas que caminham juntas: “Toda caminhada chega ao fim de um ciclo e cada ciclo deixa marcas nos trabalhadores que representou, nos companheiros que caminharam ao seu lado e na história construída coletivamente ao longo desses anos.”
Poucos minutos depois, já diante da nova diretoria empossada, Bacelar concluiu sua despedida reforçando que a mudança de comando representa continuidade, e não ruptura: “Muito obrigado por tudo que nós fizemos, caminhamos e construímos juntos. Foram momentos de tristeza, mas também de alegria, de lutas e de conquistas. Vamos em frente porque, como diz o presidente Lula, a luta continua.”
[Por Vitor Peruch, da comunicação do Sindipetro Unificado]